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terça-feira, 9 de agosto de 2016

Diz que disse| A pele produz mais sebo se lavarmos o rosto e cabelo sempre que precisamos?


Rebound, rebote, chamem-lhe o que preferirem.

Diz a lenda que quando retiramos a oleosidade do rosto ou do couro cabeludo, a pele "sente" a falta de sebo e produz mais quantidade para compensar aquele que foi  retirado. Isto faz com que muitas pessoas tenham deixado de usar champô ou de lavar o rosto com um produto de limpeza que retire o excesso de oleosidade.

A realidade é que não há limpeza nenhuma no mundo que vá reduzir o padrão de secreção das nossas glândulas. Mas para além de ser pouco higiénico, deixar de limpar a pele do rosto e couro cabeludo por comprometer o nosso bem-estar, e agravar problemas como a acne ou a caspa.


O que são as glândulas sebáceas?

Fazem parte do folículo pilossebáceo e estão espalhadas por quase todo o corpo, mesmo nos sítios onde não nasce pêlo como na testa ou nas abas do nariz.

A sua função é produzir o sebo, uma mistura de gorduras que entre outras ações, ajudam na manutenção da hidratação da pele e na sua proteção contra microorganismos patogénicos.


De onde vem a teoria do efeito rebound?


Um estudo verificou que a quantidade de sebo recolhida entre o início e o final de um período de tempo era inferior à quantidade recolhida durante o mesmo período, se nesse durante esse tempo fossem feitas várias recolhas.

Segundo os cientistas, isto quereria dizer que sempre que houvesse uma recolha, as glândulas produziriam mais sebo do que antes para compensar a sua falta, à semelhança do que acontece em muitos outros processos biológicos.

E isto é algo que a nossa experiência no dia-a-dia parece confirmar: quem tem pele ou cabelo oleoso sente que a oleosidade volta imediatamente depois de os lavar. E às vezes até parece que fica pior! Ora, isso pode acontecer em parte porque se tínhamos o rosto/cabelo limpo e este voltou a ficar sujo, ainda que não esteja pior ao que estava antes, o contraste entre o antes e o depois pode fazer com que pareça.

Para que esta teoria estivesse correta, seria necessário que a glândula sebácea (lá em baixo) pudesse de alguma forma "perceber" que havia uma falta de sebo à superfície. Isto poderia acontecer por exemplo por deixar de haver tanta pressão sobre ela.


O que pode estar a acontecer...

Em contrapartida, um estudo publicado em 1957 sugeriu uma teoria diferente: a glândula sebácea não responderia a qualquer estímulo exterior, produzindo a mesma quantidade de sebo durante todo o dia.

No entanto, quando o sebo superficial fosse removido, haveria um "alívio" na pressão exercida sobre a abertura da glândula. Só que a limpeza só remove o sebo que se encontra à superfície, e não aquele que se entra no interior dos ductos já formado. Como consequência, esse sebo sairia mais rapidamente para o exterior do que quando a pele não estava limpa, esto ocorreria apenas por um fenómeno físico, chamado de capilaridade.

Na prática, dar-se-ia apenas um aumento na secreção, e não na produção.
O facto de a quantidade de sebo recolhida no final de um período de tempo ser inferior à quantidade conseguida em várias recolhas poderia dever-se ao facto de este fenómeno ocorrer também entre as células da epiderme que pudessem ter armazenado sebo antes da limpeza. Ou seja, além de o sebo ascender através dos ductos, ascenderia também de entre os espaços que separam as células:
Em conclusão, na pele limpa o sebo espalha-se-ia rapidamente à superfície da pele, e quando esta estivesse coberta, a pressão sobre a glândula seria máxima e a quantidade de gordura era mantida constante até uma nova limpeza.


Conclusão?


Na verdade, até hoje não foi encontrado nenhum indício claro de que a glândula sebácea aumente a sua produção após a pele ser limpa. Foram feitos outros estudos à posteriori, mas os resultados nunca foram concordantes.

Apesar disso, continuo a ouvir muitas marcas afirmar piamente que o efeito rebound existe. Lembro-me que uma vez ouvi mesmo uma formadora dizer que quanto mais tempo massajássemos um gel de limpeza no rosto, mais gordura a pele iria produzir. Pois... Eu pensei o mesmo.


Ainda assim é importante limpar o rosto e couro cabeludo com frequência


Seja qual for a verdade, uma boa limpeza é essencial para combater a acne, a caspa, ou simplesmente a oleosidade excessiva no rosto e couro cabeludo.

E deixo-vos algumas razões:
  • Mesmo que as glândulas sebáceas produzam mais gordura, de forma a compensar aquela que foi removida, só o farão até um "ponto de equilíbrio", em que a pele volte a ficar coberta, cessando depois a sua produção. Por isso não, não corremos o risco de pingar sebo se nos lavarmos todos os dias.
  • No caso da acne e da caspa, a acumulação de sebo e posterior metabolização dos seus constituintes por bactérias ou fungos provocam a inflamação, que depois dá origem às borbulhas ou descamação do couro cabeludo. Ora, só com uma boa limpeza (e frequente) é que conseguimos remover:
    • Esses metabolitos produzidos pelos microorganismos
    • O próprio excesso de microorganismo que prolifera na pele
    • As células de descamação (no caso da caspa)
    • Todos os outros resíduos que acumulamos ao longo do dia (pó, fumo, poluição) e que podem também ter uma ação inflamatória
  • Talvez a mais importante: ninguém se sente bem com o rosto a brilhar de oleosidade, ou com o cabelo colado à cabeça

No entanto, uma limpeza excessiva e agressiva pode agravar a inflamação

Não porque a pele produza mais sebo, mas sim porque a irrita. Ora, se provocarmos inflamação numa pele com propensão para inflamar, estaremos a estimular o desenvolvimento de vermelhidões, e de lesões como borbulhas ou descamação.

Além disso, se usarmos produtos de limpeza com pH elevado, como por exemplo sabonetes estamos a alcalinizar o pH natural da pele, que é ácido, e é importante para impedir o crescimento de bactérias à sua superfície. Se bem se lembram, bactérias andam de mãos dadas com a acne, e os fungos com a caspa.

Para evitar estas situações, é preferível optar por produtos de limpeza específicos para o rosto e cabelo.


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