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sábado, 25 de fevereiro de 2017

Cremes de noite & Ritmo cicardiano

Elle
Certamente já todos ouvimos dizer que "devemos utilizar um creme de noite, porque é durante esta altura que a pele se renova e repara". E curiosamente, ou não, esta frase vem quase sempre acompanhada de uma tentativa de nos vender determinado produto.

Recentemente, e numa tentativa de "subir a parada", têm surgido também alguns produtos que alegam "re-sincronizar" o ritmo cicardiano das células da nossa pele.

Ora, que o modo de funcionamento do nosso organismo se rege por um "relógio biológico" já todos sabemos. A luz, em particular, mas também a temperatura, humidade ou poluição são alguns dos fatores que condicionam o quais os processos metabólicos mais ativos em determinado momento do dia.

Não me interpretem mal... Já vos falei de várias situações em que se justifica utilizar produtos específicos para a noite, e cada pessoa terá as suas. No entanto, até que ponto podemos extrapolar este conhecimento para definir que precisamos de determinado produto a determinada hora na nossa rotina de beleza?

Fiz a pesquisa do costume, e deixo-vos as minhas conclusões e opiniões, tendo em conta a investigação científica que é de domínio público.



A pele funciona de maneira diferente de dia e de noite?

Sim! As várias celulas da pele contêm mecanismos de regulação metabólica, sendo que alguns deles são mesmo independentes do resto do organismo. Uma vez que a pele é constituída por células muito diferentes, desde fibroblastos (derme), queratinócitos (epiderme), melanócitos (epiderme, produção de melanina), ou até aquelas que encontramos em glândulas sebáceas; cada uma dessas células tem o seu próprio relógio biológico.

Esta variação no funcionamento das estruturas cutâneas durante as diferentes horas do dia tem como objetivo minimizar os danos provocados nas membranas, proteínas e DNA celular, adaptando os mecanismos de defesa às necessidades que a pele vai tendo a cada momento.

Isto verificou-se através de diversos estudos, que encontraram padroes de variação no metabolismo das células sensivelmente a cada período de 24h.

  • Dia 

Quando a nossa pele recebe a luz do sol a fotoliase, uma enzima reparadora do DNA, é ativada, passando a poder reparar os danos que a radiação possa provocar nos genes das células, e que aceleram o seu envelhecimento, ou até o desenvolvimento de lesões cancerígenas. 

Por outro lado, a presença de radicais livres de oxigénio que provocam lesões em diversas estruturas celulares, estimula uma série de outras defesas antioxidantes, como por exemplo a produção de melatonina, que por sua vez ativa uma série de enzimas e substâncias com elevada ação antioxidante.

Por último, também a produção de sebo pela pele é mais elevada durante a tarde, voltando a reduzir-se no período da noite.

  • Noite

Verifica-se que é nesta altura que a hidratação da pele se encontra mais reduzida, uma vez que é à tarde mas sobretudo à noite que a pele perde mais água por evaporação.

Adicionalmente, é também nesta altura que a nossa barreira cutânea se encontra mais permeável, o que poderá estar relacionado com uma maior probabilidade em sentir comichão ou irritação.

Por outro lado, verifica-se que a renovação das células da epiderme é bastante superior durante a noite, quando comparada com aquela que se verifica durante o dia.

Também a ativação dos mecanismos de reparação do DNA lesado parece ser superior à noite, mesmo tendo em conta a ativação da fotoliase durante o dia.

O nosso ritmo cicardiano pode estar alterado?

Sim. O envelhecimento, a exposição a estímulos externos em horários pouco "naturais" (luz artificial), ou a alteração dos horários de descanso, são algumas das situações que podem desregular o nosso ritmo cicardiano, e enfraquecer os mecanismos de defesa face ao exterior. 

A queda de cabelo sazonal, que se deve à variação da produção de melatonina pelo nosso organismo aquando das mudanças de estação, é um exemplo de uma consequência benigna de alterações do ritmo cicardiano da pele.

Por outro lado, existe também a hipótese de que a elevada incidência de melanoma nos últimos anos se possa dever em parte à exposição contínua a luz artificial fluorescente, que suprime aquela que seria a produção normal de melatonia e poderá assim reduzir a ativação das defesas antioxidantes da pele.

Numa visão mais geral, sabe-se que a alterações do ritmo cicardiano do organismo que podem ser provocadas por distúrbios do sono ou até carências alimentares contribuem para alterar a pigmentação e crescimento do cabelo, mas também para acelerar o envelhecimento.

Pode dizer-se que a pele se renova durante a noite?

Sim, mas não da forma absolutista como muitas vezes é dito. A pele renova-se e "repara-se" durante todo o dia, sendo que alguns processos tendem a ter mais ênfase durante a noite.

Por outro lado, a seleção dos melhores produtos para aplicar de dia ou de noite tendo em conta somente a o ritmo cicardiano das células da nossa pele pode ser interpretada por várias perpetivas: Se por um lado parece ser melhor aplicar produtos de tratamento e "reparação" durante a noite, uma vez que a permeabilidade da pele será superior; por outro sabe-se que é também nesta altura que as células da epiderme se renovam a uma velocidade superior, e por isso a penetração de qualquer ingrediente ativo pode ser mais reduzida.

Justifica-se usar produtos diferentes de dia e à noite? 

Acredito que sim, dependendo da pessoa em questão, mas não me parece que o ritmo circardiano da pele seja o principal motivo para isso.

Acho muito mais importante ter em conta se os ingredientes que utilizamos durante o dia são estáveis quando expostos à radiação  solar, mas também se existe a possibilidade de estes ingredientes sensibilizarem a pele na presença deste tipo de radiação.

Também é importante perceber que se temos a necessidade de tratar diferentes problemas de pele em simultâneo, não é possível aplicar todos os produtos de que precisamos de uma vez. Até porque isso pode ser sensibilizante... Por isso, pode ser necessário optar por uma rotina diferente durante a noite.

É claro que durante o envelhecimento vamos perdendo alguma capacidade de renovação da pele, qualidade da barreira cutânea, bem como das suas defesas antioxidantes. Mas isso acontece tanto durante o dia como durante a noite, e por isso devemos adaptar a nossa rotina a essas necessidades, devendo fazê-lo a qualquer hora do dia, e tendo em conta todos os pontos anteriores.

No meio de tudo isto, as pessoas mais jovens e sem problemas de pele de maior podem não ver a menor necessidade em utilizar produtos diferentes de dia e de noite. E não, não há nada de errado com isso. Se bem que a adição de um protetor solar de manhã só faz bem :p

Por último, uma palavra para os ingredientes patenteados que prometem re-sincronizar o ritmo cicardiano da pele. Geralmente a investigação e desenvolvimento de ingredientes por parte das marcas é confidencial, e nao há evidência de que esses ingredientes tenham resultados relevantes. Por isso, a menos que realmente tenham curiosidade e possibilidades para experimentar estes produtos, não acredito que a sua escolha por conterem este tipo de ingrediente seja uma boa opção.

Assim, acredito que a compra de produtos cosméticos é algo muito pessoal, e deve ser pensada de acordo com necessidades reais, e não com chavões impostos pelo marketing. Sim, é importante termos em conta a forma como a nossa pele funciona. Mas se os produtos de noite não tiverem um claro benefício na sua composição face aos produtos de dia, não me parece que faça muito sentido gastar dinheiro neles.

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