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domingo, 24 de junho de 2018

Diz que disse| Existem realmente cremes para diferentes idades?

Vogue Italia
Há uns 3 anos quis comprar o Redermic C na Well's. Equando me dirigi à caixa, a senhora que me atendeu questionou-me com um ar muito cândido se aquele produto era para mim. Eu disse-lhe que sim, com toda a naturalidade de quem sabe que não está a tentar comprar morfina ou algo do género; ao que a senhora me responde que certamente será "demasiado forte para a minha idade"; questionando ainda se perdi muito peso recentemente. Estivemos a discutir educadamente por 1 ou 2 minutos; após os quais me fartei daquela cena e decidi dar uma de arrogante, dizendo que era farmacêutica (na altura ainda nem tinha acabado o curso!), e sabia o que estava a fazer. A senhora lá faturou o creme, e eu vim à minha vida.

Entretanto este episódio ficou-me na memória até hoje, e veio-me à mente de novo após uma questão de uma leitora (se não fossem vocês já tinha ficado sem assunto!).

Por isso, decidi abordar a relação entre os produtos anti-envelhecimento e a idade em todas as vertentes que conheço.


Respondendo à pergunta do título: Não. Mas estas indicações podem dar uma ajuda. Confuso? Não é...


Teen Vogue
Idade vs necessidade

Se por um lado os sinais do envelhecimento tendem a aparecer em idades específicas; a verdade é que cada pessoa tem a sua herança genética e história de vida; que por sua vez afetam em muito a forma como a sua pele envelhece.

Por isso, é natural que diferentes pessoas na mesma faixa etária apresentem sinais do envelhecimento distintos. Será que a resposta deverá ser a mesma? Não totalmente. Sobretudo se estas pessoas tiverem tipos de pele diferentes (mais detalhe no último tópico); ou preocupações mais específica (manchas, acne,etc.).


Idades diferentes, ingredientes ativos diferentes?

Embora haja um grande número ingredientes dirigidos para combater os sinais do envelhecimento, a verdade é que são muito poucos aqueles que possuem eficácia comprovada; o que por si só torna a escolha reduzida. Estes ingredientes atuam eficazmente em todas as idades, tendo no entanto particularidades que os tornam mais ou menos indicados para determinadas pessoas; e por isso deverão ser priveligiados nas escolhas de produtos cosméticos sempre que possível.

Entre eles estão os retinóides (retinol e retinaldeído, com mais frequência), a vitamina C (preferencialmente em concentrações superiores a 5% quando pura, e em concentrações variáveis nos seus derivados), a niacinamida (entre 1 e 10%), e os alfa hidróxiácidos (em concentrações variáveis dependendo do poder acídico e da sensibilidade individual). Alguns péptidos também terão eficácia visível, mas a evidenta relativa a estes ingredientes e´ainda reduzida, sendo também mais difícil deduzir se estes se encontram em concentrações efetivas.

Além destas concentrações, é tão ou mais importante que estes produtos cosméticos se encontrem formulados por forma de garantir a estabilidade destes ingredientes; e também a penetração dos mesmos até às camadas da pele onde devem atuar.


  • A pele habitua-se a estes ingredientes?
Muitas pessoas relatam esta "habituação"; que consiste numa sensação de que o produto que utilizam deixou de proporcionar os mesmos resultados que ao longo das utilizações.

Isso pode acontecer por vários motivos; e por isso a palavra "habituação" é muito redutora para justificar esta perceção.

Relativamente ao uso de tretinoína, por exemplo; a literatura científica aponta que a sua aplicação tópica ao longo de um período de 6 meses proporciona uma redução cumulativa dos sinais do envelhecimento. E embora este não seja o retinóide usado em produtos cosméticos; pensa-se que os restantes retnóides atuarão como seus percursores. Não existem dados publicados acerca da eficácia deste ingrediente ao longo dos anos, mas nada faz crer que esta vá sendo reduzida.

Mais recentemente, a Avon estudou o efeito da utilização de um produto contendo retinol por 6 meses. A marca relata um pico no aumento da produção de colagénio na primeira semana; que não se perde ao longo do tempo mas será depois estabilizada, aparentemente por adaptação das células cutâneas aos efeitos do ingrediente. Por este motivo, a marca desenvolveu um produto que alterna o uso do retinol com o fitol; relatando o dobro do aumento da produção de colagenio face ao uso do retinol continuo e isolado. Infelizmente não consegui encontrar este estudo para confirmar a validade destas conclusões; mas mesmo sendo verdade que este fenómeno acontece; não me parece inteligente evitar usar este ou outros ingredientes mais cedo para poder usá-los 10 ou 20 anos depois, já que as melhorias não desaparecem.

É de realçar que este estudo não conclui que o retinol deixa de funcionar; mas sim que a velocidade a que atua tende a abrandar.


  • Há outros factores que podem intervir na percepção de habituação
Alguns exemplos:

Percepção de efeito alterada: se começaram a utilizar um produto quando a pele estava de facto em mau estado e ao longo das várias utilizações ficaram com a sensação de que essa melhoria foi deixando de acontecer; isso pode dever-se ao facto de simplesmente já não ser mais possível sentir uma melhoria tão drástica; já que o aspeto da vossa pele melhorou bastante! É também importante não esquecer que os produtos cosméticos são de aplicação tópica; e que embora possam proporcionar uma grande melhora no aspeto da pele terão sempre uma ação limitada à sua superfície.

Inativação: este será um motivo mais raro mas pode acontecer com produtos de materiais de embalagem ou  formulação pouco adequados para os seus ingredientes; ou no caso de um mau armazenamento por parte do consumidor. Assim; e a menos que o produto alegue ter alguma tecnologia que o justifique; sempre que possível evitem utilizar produtos com retinóides, vitamina C ou antioxidantes que se encontrem em embalagens transparentes e cujo produto contacte com o exterior.

Alterações ambientais: no inverno a pele tende a desidratar mais facilmente; enquanto no verão o sebo tende a tornar-se fluido; tornando a pele aparentemente mais oleosa. Por estes motivos, um produto que já usam há algum tempo pode deixar a vossa pele mais oleosa ou menos hidrata simplesmente porque a próprio estado da pele se alterou com o ambiente.


Situações em que a indicação da idade pode ser relevante!

Exemplos:
  • Compra sem ajuda
Para quem compra on-line, ou prefere não pedir aconselhamento; ter uma idade preferencial escrita no rótulo, ou um anúncio publicitário que direcione determinado produto para uma faixa etária específica pode ser muito útil, alem de que garante mais vendas para a marca. Relativamente aos anúncios, alerto-vos apenas para o facto de que a modelo ou celebridade que aparece na imagem nem sempre terá a idade do consumidor para quem o produto é dirigido. Felizmente esta tendência parece estar a mudar!

  • Galénicas e fragrâncias
Este é provavelmente o ponto mais relevante de todos. Apesar de a maioria dos produtos ter a indicação do tipo de pele a que se destina; a verdade é que termos como "pele normal" ou "pele mista" pode significar coisas diferentes para uma mulher de 20 ou de 50 anos; já que à medida que os anos passam a pele tende a ficar cada vez menos oleosa, e por isso necessita de texturas mais "gordas".

Assim, e se o nosso tipo de pele se enquadrar naquele que será o mais comum para a nossa faixa etária; a indicação da idade poderá ajudar-nos a direcionar as escolhas para produtos dos quais iremos gostar mais.

  • Procura por ações específicas
Ação tensora imediata, efeito matificante, e a adição de uma tonalidade rosada são apenas alguns dos acabamentos que podem variar entre produtos; e geralmente estão associados a necessidades de faixas etárias específicas.

Também neste caso, uma indicação da idade preferencial para o produto poderá ajudar a fazer melhores escolhas.

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