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| Vogue Russia |
Antes
que me chamem de nazi do marketing, asseguro-vos que gosto muito de uma boa
campanha publicitária. Criatividade e originalidade são sempre bem
vindas. Já argumentos de falsa autoridade, atestados de ignorância e
desonestidade deixam-me um tanto ou quanto aborrecida.
Mais
do que tentar desfazer mitos, alguns deles pela enésisma vez; esta
publicação tem como objetivo, digamos, "apurar" o grau de exigência dos excelentíssimos leitores deste blog perante
determinadas mensagens que muitas marcas nos fazem chegar através das
redes sociais, dos media (artigos pagos sem que este patrocínio seja declarado muitas vezes), e até do material de formação que é fornecido
aos profissionais de saúde.
Sei
que alguns exemplos que menciono podem parecer mera implicância, mas
não são. Se uma determinada marca se quer distinguir no mercado com
argumentos de cariz científico tem que fazê-lo com clareza e rigor; de
forma a não criar falsas expectativas nem induzir o consumidor em erro.
Depois desta publicação, espero que nunca mais olhem para um anúncio como dantes.
1.
"Estimula o colagénio"
Já
nem questiono a veracidade da alegação, que em muitos produtos é
bastante duvidosa; já que basta um estudo in vitro (realizado em
células) e uma qualquer acrobacia estatística para afirmar algo deste
género. O que me revolta é mesmo o misto de preguiça e falta de rigor
desta afirmação. Estimula a quê? A correr? A saltar? Estimula a produção
ou retarda a degradação? Fica a dúvida.
2.
"Contém extrato de Planta Qualquer"
Sendo
Planta Qualquer o nome da espécie da dita cuja. O exemplo mais
flagrante não são propriamente os erros ortográficos (que também os há),
mas sim a forma como são nomeadas as espécies de seres vivos. A
taxonomia é algo que se aprende no ensino básico, o que se torna
preocupante. Usem itálico ou aspas, coloquem o género a começar em
maiúscula e o descritor específico em minúscula. Contam-se pelos dedos
das mãos as marcas que o fazem.
3.
Não contém X (e contém)
Já
repararam em produtos anunciados no site da marca como sendo "sem
parabenos, sem conservantes"; mas que contêm o metilparabeno lá pelo
meio (e ainda bem)? Provavelmente não tiveram oportunidade, mas se começarem a
conferir terão algumas surpresas... O mesmo acontece também para os
produtos "Sem fragrância", que muitas vezes contêm óleos essenciais na
sua composição e na prática são também eles perfumados, com todo o
potencial sensibilizante que isso pode significar para uma pele
sensível.
Os "Sem químicos" não merecem grandes comentários.
Provavelmente passaram por uma bomba de vácuo antes de chegar à
prateleira...
4.
Alegações de medicamentos
É
importante sublinhar neste tópico que não ponho em causa a rotulagem
dos produtos, que por motivos legais tende a ser cuidadosa; mas sim a
comunicação verbal ou aquela que é feita através de dossiers de
formação, panfletos, entrevistas nos media, etc.
Palavras
como "anti-inflamatório", "tratamento" ou "princípio ativo" exigem
demonstração de eficácia através de ensaios rigorosos, e por isso são
reservadas a medicamentos.
Ainda
assim, é comum vermos estas palavras serem utilizadas com toda a
naturalidade em relação a produtos cosméticos; e isso tem vários
problemas. Primeiro, porque pode levar um consumidor menos informado a
optar por estes produtos em detrimento de medicamentos de que possa
necessitar. Depois, porque deposita no consumidor uma expectativa
demasiado elevada relativamente ao produto cosmético.
5.
Não tóxico
Esta
é sem duvida uma das expressões mais difundidas, mas também uma das
mais ridículas que podemos encontrar. É especialmente comum em produtos
"naturais"; e ilustra a falta de racionalidade deste segmento da
indústria cosmética.
Em primeiro lugar porque deixa implícito que há
produtos cosméticos que serão tóxicos; quando na realidade toda a
matéria será tóxica dependendo da quantidade, via de entrada,
sensibilidade da pessoa em questão, e muitos outros fatores (é só
pesquisar "Paracelso" no Google).
Depois, porque assume uma posição
de superioridade face aos restantes produtos de mercado que não é
legitima; já que todos os produtos cosméticos estão sujeitos exatamente à
mesma legislação, e por isso nem este produto nem os restantes conterá
ingredientes considerados perigosos tendo em conta o uso previsível dos
produtos cosméticos.
Por último, estes produtos baseiam este tipo de
afirmação em crenças de que determinados ingredientes serão "tóxicos";
crenças essas que não têm qualquer fundamentação científica. Claro está
que muitas destas marcas dirão que não há evidência publicada porque
"interessa" que assim seja.
Mas mais uma vez me questiono: se não há
evidência publicada, e sujeita à crítica e discussão diante de toda a
comunidade científica; como é que estes seres iluminados sabem que
determinado ingrediente é tóxico ou não? Estudos realizados em ratinhos
com doses cavalares de parabenos não contam.
6.
Erros ortográficos
Já
expressei a minha perplexidade pelo facto de a palavra reFirmante ter
tantas vezes um "a" a mais, mas infelizmente não fica por aqui. Tônico,
ácido hialurônico e exfoliante são alguns outros exemplos daquilo que se
pode encontrar um pouco por todo o lado. Eu própria tenho dúvidas relativamente a algumas palavras (nunca pensei que fosse possível dizer
centeLa asiática). Mas nesses casos uso o Priberam.
7.
Extratos com nomes mirabolantes...
Mas
que no final de contas correspondem a plantas absolutamente banais. Não sei de onde vem a ideia de que
quanto mais exótica a planta melhor o efeito, mas parece que muita da
malta do marketing acredita nisto.
8.
Extratos
com propriedades ainda mais mirabolantes...
Quando há pouca ou nenhuma evidência científica acerca dessas plantas. Não raras vezes, esta categoria versa com o uso de propriedades que só podem ser atribuídas à medicamentos. São uma constante nos dossiers de formação que leio.
9.
Conflito de valores
O
chavão do "100% Natural" veio para ficar (com toda a desinformação que
isso acarreta); e dele já não conseguimos fugir. Contudo, parece haver
marcas que não entendem muito bem a sua própria opção por categorizar os
seus produtos desta forma, criando produtos que são no mínimo contraditórios. Um exemplo será um bálsamo labial de lanolina, que contém a
alegação 100% natural.
Ora, a lanolina é um ingrediente de origem
animal. E isso não terá mal nenhum, pelo menos do ponto de vista
legislativo; senão quando pensamos que uma grande parte de quem procura
produtos de origem natural tem também preocupações éticas com o uso de
animais quer no teste, quer na origem dos ingredientes cosméticos
(produtos vegan). Mas lanolina é um ingrediente muito especial, e é até
insubstituível em alguns aspetos. No entanto, e se dúvidas restassem, o
"100% natural" está longe de ser um selo de qualidade/ ética/ inocuidade
em qualquer produto cosmético.










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