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sábado, 10 de junho de 2017

Probióticos em cosmética pt.1

Ilustração de Zebedee Helm



Os "micróbios" foram os maus da fita durante muitos anos, e a cosmética encarregou-se se os eliminar com recurso a desinfetantes, detergentes agressivos, e produtos carregados de álcool.

Hoje é perfeitamente aceite que a nossa pele está revestida por microorganismos benignos, que têm essencialmente uma função protetora.

Por outro lado, existem já diversos estudos realizados em humanos com dermatite atópica, acne e outras patologias que apontam o benefício da toma oral de suplementos alimentares contendo determinadas estirpes microbianas.

Cientes disso, são muitas as marcas de cosméticos que mencionam incluir “probióticos” com as mais diversas finalidades nos seus produtos. Mas na verdade nem tudo o que é benéfico para o nosso intestino terá um benefício semelhante quando aplicado na pele, e a utilização de bactérias vivas em cosméticos é tudo menos simples...
Podemos chamar-lhes “probióticos”?

Ou a razão pela qual uso as aspas.

Os probióticos são definidos como microorganismos vivos que são capazes de colonizar o nosso organismo e exercer sobre ele efeitos benéficos.

Acontece que na maioria dos produtos cosméticos que encontramos no mercado utilizam-se microrganismos de facto, mas que na verdade estão mortos, colapsados e despedaçados. Porquê? 

Vários motivos:

  • Condições para a sobrevivência dos microrganismos
Em primeiro lugar, é extremamente difícil um manter bactérias vivas, de boa saúde e em número considerável dentro de um produto cosmético, com todos os ingredientes que este tem, sendo este conservado à temperatura ambiente, e por um período de tempo bastante superior a um mês.

  • Necessidade de conservação 
Por outro lado, a maioria dos cosméticos é formulada à base de água e necessita de conservantes na sua composição... justamente para evitar a contaminação microbiológica. Um produto contaminado pode mudar de cor, cheiro, perder a sua homogeneidade e/ou função, dar origem a infeções, etc. Ora, se os nossos probióticos forem introduzidos num produto que contém conservantes, a sua capacidade de sobrevivência é muito reduzida. 

  • Regulamentação
A legislação que regulamenta os cosméticos requer que estes sejam testados relativamente à sua qualidade microbiológica, e à capacidade de resistir à contaminação por estes microrganismos. Por isso, a adição intencional de microrganismos vivos levanta algumas questões do ponto de vista regulamentar, até porque não existe uma distinção entre microrganismos "malignos" e "benignos".

  • Alternativas
Atualmente existem já empresas que se comprometem a formular cosméticos contendo bactérias vivas. Um exemplo disso é a ESSE, que garante contornar estes obstáculos utilizando produtos à base de óleos, que dispensam conservantes, e com recurso a técnicas de encapsulação e liofilização das bactérias (inativação por congelação e desidratação, sem as matar). Após a aplicação do produto sobre a pele, estas bactérias serão capazes de colonizar a sua superfície.

A YUN Probiotherapy utiliza uma abordagem tecnológica semelhante, e oferece produtos para a sensibilidade cutânea, acne, desodorizantes para pés e proteção da mucosa vaginal.

Quais os objetivos da utilização de “probióticos” em cosméticos?

No fundo, estas bactérias iriam fazer o papel dos microrganismos que estão naturalmente presentes na nossa pele, e que nos protegem por vários mecanismos:

  • Evitar a propagação excessiva de outros microrganismos
Numa pele saudável, cada tipo de microrganismo está presente à superfície da pele, e em diferentes proporções pelas diversas zonas do corpo.

Estes microrganismos constituem o microbioma cutâneo, e produzem substâncias que por serem ácidas ou tóxicas para os microrganismos externos, impedem que estes últimos proliferem na nossa pele.

No entanto, os microrganismos que constituem o nosso microbioma natural competem também entre eles, de forma prevenir desequilíbrios que podem ser igualmente patogénicos. A acne inflamatória é exemplo de um desequilíbrio microbiológico com consequências para a pele. Também na rosácea e na dermatite atópica pensa-se que existam desequilíbrios do nosso microbioma.

  • Atenuar a inflamação cutânea
Um pouco como consequência do primeiro objetivo, mas alguns estudo levam a crer que não é só.

A inflamação está associada à grande parte das patologias que afeta a nossa pele. E embora a relação entre a inflamação e o microbioma cutâneo  possa parecer um tanto ou quanto complexa, existem já alguns estudos a demonstrar que a existência de determinadas bactérias vivas sobre a pele pode ter um efeito benefico sobre vários marcadores inflamatórios que se encontram elevados em determinadas doenças.

Que vantagens têm as formas inativadas de bactérias?

  • Microrganismos lisados
Os microrganismos lisados são fragmentos de bactérias ou fungos, que mesmo não sendo capazes de rehabitar a superfície da pele transportam consigo moléculas que podem ser benéficas. Entre elas podemos encontrar o ácido hialurónico, moléculas tóxicas para as bactérias patogénicas, ácido lático, etc.

São sem duvida a escolha mais comum nos produtos que mencionam conter "probióticos". Os mais frequentes são o Saccaromyces lysate (fungo), Bifida lysate e Lactobacillus lysate (bactérias).

Alguns exemplos:

  • Ingredientes fermentados
Também neste caso, os microrganismos encontram-se lisados nos produtos em que são adicionados. Contudo, estes ingredientes implicam a fermentação de uma matéria prima, geralmente o leite ou um extrato vegetal, por parte uma estirpe bacteriana ou fúngica.

Da fermentação resultam novas substâncias que de outra forma não encontraríamos nesse extrato.

Conhecem estes produtos?


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