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sábado, 25 de março de 2017

"Re-oxigenar" a pele?

Vogue Gioiello Maio 2013


Oxigenar soa limpo, puro, e natural.

Talvez só isso seja suficiente para fazer destes produtos um sucesso. Mas a verdade é que há muito que se lhe diga em relação ao uso de oxigénio em cosméticos, seja qual for o seu objetivo!


Qual é a base científica?

Verificou-se que à medida que envelhecemos as células da nossa pele recebem cada vez menos oxigénio através da circulação sanguínea. E uma vez que o oxigénio é essencial para a produção celular de energia, levantou-se a hipótese de que essa carência pudesse comprometer a atividade metabólica das células da pele, que entre outras funções produzem colagénio e elastina; bem como a reprodução celular. Este cenário poderia ser um dos responsáveis pelo aparecimento de sinais do envelhecimento cutâneo, tais como rugas, falta de luminosidade ou perda de firmeza.

O oxigénio é também importante para manter a pele livre de bactérias que causam problemas como a acne, uma vez que muitas destas crescem apenas em ambientes anaeróbios (sem oxigénio).
 
Por outro lado, há vários estudos que demonstram que um elevado fornecimento de oxigénio a uma pele ferida, por via inalatória (imagem à direita) e depois pela circulação sanguínea, acelera significativamente a sua cicatrização. E embora este facto realce a importância do oxigénio para os mecanismos de cicatrização da pele, está longe de provar que o fornecimento tópico de oxigénio a uma pele que não precisa de cicatrizar possa ter quaisquer efeitos positivos.


É possivel fornecer oxigenio à pele a partir do exterior?

Até há pouco tempo pensava-se que a pele saudável não era capaz de receber oxigenio através do exterior. No entanto, mais recentemente verificou-se que há uma quantidade significativa deste gás na nossa epiderme que provém diretamente do contacto com o ar. Por isso, muitas marcas têm apostado nesta abordagem nos últimos anos.

Um estudo que consistiu na aplicação de uma compressa com a capacidade de libertar oxigénio sobre a pele de humanos demonstrou a pele apresentava algumas melhorias, quando comparada com um placebo (compressa sem libertação de oxigénio). Ao fim de 8 semanas, a pele tratada encontrava-se mais hidratada, com um menor grau de inflamação, mais colagénio, mas sobretudo elastina e filagrina, uma substância muito importante para a manutenção da barreira cutânea.

No entanto, nem tudo são boas notícias. Quando há um grande fornecimento de oxigénio, há também um grande risco de formação de radicais livres. Sim, o motivo pelo qual devemos aplicar produtos com antioxidantes todos os dias! Os radicais livres são essenciais para a regulação de muitos dos nossos processos metabólicos, mas quando presentes em concentrações demasiado elevadas e impossíveis de contrabalançar pelos mecanismos de reparação celular, podem dar origem a lesões, e acelerar o envelhecimento das células. Cientes disso, os cientistas que realizaram este estudo avaliaram também se os radicais livres formados provocariam ou não algum dano no DNA celular, e se esse dano teria sido compensado por mecanismos de reparação. Verificaram que de facto esse dano era superior quando comparado com o placebo, e que por isso é significativo, mas também que as células cutâneas conseguiram reparar s lesões provocadas.

É de salientar que todos estes resultados provêm de um único estudo, e embora sejam muito úteis para dar-nos perspectivas acerca dos efeitos deste tipo de tecnologia, não podem ser extrapolados para todos os produtos que contêm formas de libertação de oxigénio.

Como podemos transportar oxigénio em cosméticos?

  • Peróxido de hidrogénio
Esta molécula, também conhecida como água oxigenada, é uma forma muito comum de fornecer oxigénio à pele, tanto em produtos de "tratamento" como em descolorantes capilares, dependendo da concentração.

O peróxido de hidrogénio degrada-se em água e oxigénio mas por ser muito reativo, pode interagir com metais ou radicais livres, podendo ele mesmo formar neste tipo de molécula. Por isso, o peróxido de hidrogénio é também usado como desinfetante sobre os microorganismos, e pode também ter uma ação oxidante sobre as células da pele. Felizmente, temos enzimas na nossa pele especialmente dedicadas à neutralização desta molécula! Mas a quantidade de peróxido dde hirogénio que podemos usar sem lesar a nossa pele não é certa, muito menos se for utilizado diariamente, como acontece em alguns cosméticos.

  • Perfluorocarbonetos
São moléculas transportadoras de oxigénio que permitem a libertação deste gás em fórmulas cosméticas, quando deixam de estar sujeitas à pressão do interior do recipiente. Geralmente utilizam-se a perfluorodecalina, o perfluoro-2-metil-3-etilpentano, entre outros.

Segundo os fabricantes destes produtos, esta forma de libertação de oxigénio, as moléculas libertadas desta forma têm uma menor probabilidade de vir a transformar-se em radicais livres.


Será que os riscos da utilização de cosméticos libertadores de oxigénio compensam o benefício?

Temos à nossa disposição uma enorme variedade de ingredientes cosméticos que melhoram a capacidade de hidratação da pele, estimulam a produção de colagénio, e reduzem a sua degradação bem como da elastina; sem aumentar de forma mensurável a exposição da nossa pele aos radicais livres.

Assim, tendo em conta os estudos que são públicos, este tipo de tecnologia não compensa quer financeiramente, quer numa perspectiva de risco/benefício.

É óbvio que não podemos fechar a porta a novas tecnologias que podem ser mostrar ser interessantes. Mas neste momento, pessoalmente não investiria nestes produtos.

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