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sábado, 8 de dezembro de 2018

Petrolatum, mineral oil & cia| Derivados do petróleo



Certamente já ouviram dizer que a parafina líquida (mineral oil) é tóxica, a vaselina (petrolatum) fica retida à superfície da pele, e por isso não faz nada pela sua hidratação; ou até que ambos estes ingredientes são baratos, desnecessários; e fazem parte de um "esquema" das marcas de cosméticos para vos cobrar mais dinheiro.

Quem nunca? Vamos então a factos.



O que são?

O petróleo é um valioso recurso mineral formado há alguns milhares de anos; e que terá origem na fossilização de algas e plankton na ausência de oxigéno.

Trata-se de uma mistura de hidrocarbonetos de diferentes tamanhos e formas (moléculas contendo apenas átomos de carbono e hidrogénio), embora no seu estado "bruto" possa conter também outras substâncias contaminantes.

A composição destes óleos e ceras varia de acordo com a proporção de hidrocarbonetos que as constituem; e que são maioritariamente saturadados (ligações simples entre carbonos). 


Existem diversos ingredientes com esta origem, entre os quais se destacam a vaselina (petrolatum/ petroleum jelly), a parafina líquida (mineral oil) a parafina (sólida), a cera microcristalina, a ceresina e a ozocerite. 

Contrariamente, nos óleos vegetais podem encontrar-se hidrocarbonetos saturados mas também insaturados (contendo 1 ou várias ligações duplas entre carbonos, como nas imagens abaixo), quer na forma de ácidos gordos isolados, ésteres e sobretudo sob a forma de triglicerídeos (o que não acontece nos óleos minerais). Este é um aspeto essencial na distinção entre óleos minerais e vegetais, que determina as suas principais diferenças em termos de viscosidade, espalhabilidade e permeação.










Processo de purificação do petróleo

A cosmética não usa petróleo, assim como não usa amêndoas (mas sim o seu óleo, depois de o processar). Para se obterem os seus derivados, o petróleo passa por um extenso processo de refinação, de onde se conseguem obter fontes de energia (gasolina, gás natural, etc.), bem como de óleos e ceras com diversas aplicações possíveis.

Os derivados do petróleo que são usados em produtos cosméticos têm a mesma qualidade daqueles que são usados na produção de medicamentos (pharmaceutical grade); sendo submetidos a processos de purificação adicionais do que os óleos usados por exemplo em mecânca. Nos séculos XIX e XX, a exposição de trabalhadores de refinação a estes produtos esteve associada com o desenvolvimento de cancro pela inalação e absorção dérmica de hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAH's). Atualmente a presença destes contaminantes foi drasticamente reduzida graças à implementação de etapas de purificação adicionais, bem como a uma maior proteção destes trabalhadores.


Vantagens

Dependendo dos derivados do petróleo de que estamos a falar, o seu uso em cosmética justifica-se por estes possuirem características que lhes dão uma posição proveligiada na formulação de produtos:

  • Oclusividade
A desidratação da pele é causada maioritariamente pela perda de água sob a forma de vapor à superfície da pele. Nem sempre a pele é capaz de desenvolver os mecanismos necessários para impedir que esta perda de água seja significativa, e por isso por vezes é necessário aplicar produtos cosméticos hidratantes.

Quando usadas de forma isolada ou associadas, a vaselina e parafina líquida têm a capacidade de formar um filme contínuo à superfície da pele capaz de minimizar de forma muito eficaz esta perda de água. Quando fundidas e misturadas com outros ingredientes da formulação; também as ceras derivadas do petróleo contribuem para este processo, tornando as formulações mais espessas.

E de facto, se compararmos estas características com aquelas que possuem os óleos vegetais; verificamos que os óleos minerais apresentam uma eficácia significativamente superior neste aspeto.

Hoje em dia já não existem tantas formulações com elevada concentração destes ingredientes, mas podemos encontrá-los ainda nos bálsamos labiais, alguns cremes de mãos e produtos para pele seca e sensível.

  • Promoção da reparação da barreira cutânea
Ao contrário do que muitas vezes é disseminado, a aplicação de vaselina numa pele cuja barreira cutânea foi totalmente removida com acetona promove uma aceleração na reparação desta mesma barreira.

  • Baixo potencial irritante
Por serem utilizados há centenas de anos, estes ingredientes têm um perfil toxicológico muito bem conhecido, tendo-se mostrado benéficos e inócuos para a hidratação e proteção da pele de bebés, ma também em peles secas e sensíveis. Existem mesmo pessoas que só toleram este tipo de ingrediente cosmético, devido à sua eficácia e inércia.


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Desvantagens
  • Aspetos sensoriais
A estrutura química dos hidrocarbonetos que compõem a generalidade dos derivados do petróleo faz com que estes ingredientes tendam a ser menos agradáveis do ponto de vista sensorial quando comparados por exemplo com óleos vegetais ou silicones. Assim, produtos contendo elevadas concentrações ou apenas derivados do petróleo, em especial a vaselina e parafina líquida; deixam um resíduo gorduroso à superfície da pele durante um período bastante prolongado; o que não é apreciado pela maioria das pessoas.

  • Impacto ambiental


A exploração de petróleo é uma atividade com graves consequências ambientais e políticas. E embora a sua exploração para a produção energética seja consideravemente superior àquela que se destina ao desenvolvimento de cosméticos, o petróleo continua a ser um recurso natural escasso.

Neste sentido, será importante procurar alternativas de eficácia semelhante; cuja exploração ou produção seja sustentável.


Questões polémicas

    Vias de entrada através da pele para
    qualquer ingrediente ou medicamento.
  • Estes ingredientes penetram a pele e cabelo?
A penetração de uma substância através da camada superior da pele (epiderme) e a sua permeação até à derme, com posterior reabsorção pela circulação sanguínea dá-se maioritariamente por entre as células superficiais da epiderme, através das mesmas, ou através dos orifícios de pêlos ou glândulas.  Apenas uma gama muito restrita de substâncias será capaz de o fazer, sendo que esta dificuldade será maior para aquelas que possuem grandes "dimensões" (peso molecular > 500Da) e para substâncias com elevada atração ou capacidade de repulsão da água.

Uma vez que as moléculas contidas nos derivados do petróleo tendem a ter pesos moleculares elevados e uma elevada capacidade de respulsão da água, será de prever que na sua generalidade os derivados do petróleo não sejam capazes de penetrar além do estrato córneo, e muito menos chegar até à derme. Os diversos estudos realizados neste sentido em voluntários humanos tanto com a vaselina como com a parafina líquida confirmam esta previsão, indicando que a vaselina terá uma maior compatibilidade para "desestabilizar" temporariamente a barreira cutânea, mas mesmo assim não será capaz de atingir sequer o estrato espinoso da epiderme. Aliás, a capacidade de penetração destes ingredientes é inferior àquela que apresentam por exemplo os óleos vegetais de soja e amêndoas.

De forma semelhante, a penetração destas substâncias através da cutícula capilar será limitada; já que a cutícula tem afinidade para moléculas de peso molecular semelhante àquelas que atravessam o estrato córneo da pele. Ainda assim, os derivados do petróleo são muitas vezes utilizados em formulações de produtos capilares com o objetivo de revestir os cabelos, em conjuto com outros ingredientes, e proporcionar-lhes mais brilho.

  • São comedogénicos?
É de notar que a ação comedogenica de um produto cosmético depende não apenas de um ingrediente mas da interação de todos os ingredientes da formulação com a pele de um indivíduo em específico. Além disso, o desenvolvimento de comedões (pontos negros/pontos brancos) e posteriormente de borbulhas está também relacionado com aspetos como eficácia da limpeza, potencial irritante de ingredientes específicos, variações hormonais, e até com a combinação entre os vários produtos usados. Por este motivo, o termo "comedogénico" é algo bastante vago e difícil de generalizar.

Sabendo que estes ingredientes não atravessam significativamente a superfície da pele, não será de esperar que a sua presença por si só seja capaz de "bloquear" os poros provocando comedões. E de facto, estudos que avaliaram a ação comedogénica destes ingredientes consideraram que a parafina líquida terá uma classificação 0-2 (entre 0 e 5; sendo que o valor de 2 estaria realcionado com a presença de amostras contendo algumas impurezas); e que a vaselina não terá demostrado uma maior tendência para gerar comedões, microcomedões ou borbulhas após  8 semanas de aplicação (em humanos). Curiosamente, o estudo que analisou o potencial comedogénico da parafina líquida atribuiu uma classificação de 4 às manteigas de côco e cacau... Em todo o caso, estes estudos referem-se à utilização de substâncias puras, e consideram-se estar "ultrapassados" devido aos motivos enunciados no primeiro parágrafo.

Apedar disto, alguns produtos que contêm óleos minerais estão associados ao a uma ação comedogénica em determinadas pessoas. Assim como há produtos cosméticos que não os contêm e também estão. Mas tratando-se os produtos cosméticos de misturas de diversos ingredientes, e sabendo que os ingredientes em causar não possuem a capacidade de "penetrar" a pele; como será possível concluir que serão eles os culpados? Só estudos específicos para este fim nos poderão esclarecer.

  • A ingestão de derivados do petróleo através de bálsamos labiais pode levar a toxicidade a longo prazo?

Tendo em conta a sua frequência de aplicação e a forma como são usados, considera-se que os produtos para lábios são totalmente ingeridos e por isso devem obedecer a critérios de segurança diferenciados.

Posto isto, tem-se questionado a segurança da utilização de derivados do petróleo nestes produtos. Esta preocupação não será tão relevante relativamente aos hidrocarbonetos aromáticos policílicos (PAH) de que falámos anteriormente, já que os novos processos de purificação permitem a sua quase total eliminação; mas sim em relação a alguns MOSH. Os MOSH (mineral oil saturated hydrocarbons) são hidrocarbonetos saturados presentes nestes ingredentes, podendo também encontrar-se em alguns alimentos devido ao seu contacto com derivados de petróleo (presentes em cartonagens, processos da indústria alimentar, etc.). Após a ingestão e metabolozação, alguns dos MOSH poderão acumular-se em algumas zonas do corpo humano. Isto acontece para diversas substâncias com as quais contactamos no dia-a-dia, e não indica por si só que elas sejam minimamente tóxicas. 

Contudo, levantou-se a hipótese de que a acumulação de MOSH poderia provocar granulomas hepáticos; e extistem mesmo estudos realizados numa variedade específica de ratazanas que vai de encontro a essa hipótese. Estes estudos toxicológicos são prospetivos (e não conclusivos); sendo que a sua transposição para o organismo humano deve ser avaliada por toxicologistas especializados, como aqueles que se encontram nos órgão de regulamentação dos produtos de saúde e alimentps. Neste sentido, a EFSA (Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos) avaliou os estudos realizados e concluiu que o tipo de evidência que existe para esta é fraco, já que os animais testados e as doses utilizadas não podem ser comparadas com a realidade dos seres humanos; e por isso a ingestão de MOSH nas quantidades conhecidas não parece apresentar consequências adversas. Considera-se ainda que os MOSH provenientes de bálsamos labiais representarão apenas 10% da exposição total, o que reforça a fragilidade da evidência que existe atualmente. Numa nota meramente pessoal, podemos associar este conhecimento ao facto de estes ingredientes serem extremamente antigos, muito utilizados em bálsamos labiais (que grande parte da população usa); e de não ter sido até hoje reportada qualquer relação de causa-efeito entre a sua utilização e o aparecimento de granulomas hepáticos em humanos.

  • As marcas só usam estes ingredientes porque são baratos, e aproveitam-se disso.
Sim e não. De facto, estes ingredientes são relativamente baratos, pouco problemáticos, e de comportamento bem conhecido; o que torna as formulações mais enconómicas. No entanto, nem todas as marcas que os usam cobram preços desproporcionados. E tendo em conta a sua eficácia hidratante e protetora, poder-se-à mesmo considerar que muitos produtos só se tornam acessíveis a pessoas que tanto necessitam deles por conterem este tipo de ingrediente que os torna simultaneamente eficazes e baratos.

Contrariamente a isto, há também marcas que cobram valores absurdos por produtos de formulações aparentemente baratas. E nesses casos, a crítica poderá fazer sentido.

  • Os derivados do petróleo dificultam a absorção de ingredientes ativos dos produtos cosméticos na pele e cabelo?

Em ciência (como na vida), raramente existem respostas de "sim" ou "não". E este é um desses casos.

Se o ingrediente ativo for de encontro às características de peso molecular e afinidade para a água acima mencionadas, poderá ser um candidato para atravessar o estrato córneo. Por outro lado, sabemos também que os derivados do petróleo oferecem uma baixa penetração tanto na pele como no cabelo.

Posto isto: de que forma poderão os derivados do petróleo interferir na absorção destes ingredientes ativos? Aparentemente, podem diminuí-a e aumentá-la.

De facto, se o ingrediente/fármaco em causa tiver uma elevada afinidade para os derivados do petróleo, a sua velocidade de libertação será reduzida; uma vez que este tenderá a permanecer emvolvido nestes óleos minerais. Mas para além de isto raramente acontecer para produtos de ação tópica, porque nesses casos os ingredients/fármacos em questão também não serão bons candidatos para atravessar o estrato córneo e exercer a ação desejada sobre a pele; tanto a vaselina como a parafina líquida e ceras raramente estão presentes numa formulação em quantidades elevadas (com exceção para bálsamos labiais e alguns cremes de mãos). Ao invés disso, elas encontram-se geralmente associadas a uma fase aquosa.  Já se o ingrediente/fármaco tiver pouca afinidade para a componente da formulação onde se encontram os derivados do petróleo, e considerando ainda que se usam maioritariamente cremes de fase externa aquosa; os derivados do petróleo não deverão influenciar de forma significativa a penetração destas substâncias.

Paralelamente, sabe-se também que a utilização de derivados do petróleo como componentes de formulações para uso tópico pode aumentar o tempo de permanência do ingrediente ativo/fármaco sobre a pele. Isto porque a porção "gordurosa" de um creme, da qual fazem parte; forma um filme à superfície da pele, que por sua vez atua de 2 formas: Primeiro porque reduz a perda de água por evaporação, melhorando a hidratação da pele, e assim a capacidade de penetração destes ingredientes. Por outro lado esta mesma componente oleosa da formulação forma um filme mais ou menos oclusivo à superfície cutânea, que por sua vez aumenta o tempo de contacto do ingrediente ativo/fármaco com a pele.

Prova disso, é que muitos medicamentos tópicos disponíveis sob a forma de cremes e pomadas utilizam derivados do petróleo na sua composição da sua base, embora em quantidades moderadas. Podemos verificar isso no Ketrel, Advantan, Dermovate, etc. Ninguém tem dúvida de que funcionam, certo?

Conclusão


Tal como na vida não há muitas respostas de "sim" ou "não"; também é raro haver unicamente "heróis" e "vilões". Os derivados do petróleo utilizados em cosmética são extremamente eficazes para o fim a que se destinam, e possibilitam inclusivamente o acesso de cosméticos de qualidade por um preço suportável. Isto é especialmente importante para pessoas com patologias cutâneas e/ou condições económicas desfavoráveis.

Se considerarmos paralelamente que se tratam de ingredientes sujeitos a um rigoroso processo de purificação e controlo analítico, que têm vindo a ser utilizados há mais de um século com excelentes dados de tolerância; será fácil compreender que atualmente não há razões sérias para os temer.

Não obstante disso, é importante perceber que as características sensoriais destes ingredientes na sua forma pura não estão minimamente adaptadas às exigências dos consumidores atuais, sobretudo dos mais jovens. Por isso, a escolha de produtos cosméticos deve ter em conta o tipo de pele, sensibilidade e outras necessidades da pessoa a quem se destinam; independentemente de conterem o ingrediente X ou Y na sua composição (por vezes em quantidades ínfimas).

Se pelo contrário precisam deste tipo de produto, usem e abusem deles. As texturas estão cada vez melhores e os preços também!

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