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sábado, 16 de maio de 2020

Cronograma Capilar: O que diz a ciência?| Parte 3



Esta é a terceira publicação de uma série de 4, em parceria com a Miss Curly.

Desta vez, debruçamo-nos sobre o Cronograma Capilar. De acordo com o site português, o Cronograma Capilar tem como objetivos “devolver” ao cabelo tudo aquilo que ele perde, quer por ação natural (exposição ao sol, vento, água do mar, entre outros fatores), quer por ação humana (uso de produtos capilares, alisamento ou ondulação permanente, utilização de fontes de calor, entre outros).

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A premissa é interessante, e por isso este método de cuidado capilar tem atraído muitos seguidores quer no Brasil, quer em Portugal. E apesar de a ciência ainda não ter estudado este assunto, é certo que muitas pessoas relatam grandes resultados! Mas tal como no caso do método Curly Girl, a existência de casos de sucesso não prova que um determinado método funciona. No limite, prova que esse método funciona para aquela pessoa, de acordo com as condições do momento e com as expectativas da própria. Confuso? Ao longo desta publicação vamos tocar neste ponto várias vezes, e esclarecer a importância desta premissa.

Reiteramos que esta publicação não tem o objetivo de denegrir o método do Cronograma Capilar, e muito menos os seus praticantes. Contudo, tendo em conta o investimento de tempo e dinheiro que o Cronograma Capilar pode representar, consideramos importante informar as pessoas que o praticam  relativamente aos princípios que fazem sentido, à luz do conhecimendo científico, distinguindo-os de afirmações menos rigorosas, ou sem fundamento.

Nesta publicação, vamos reflecir acerca da informação presente no site do Cronograma Capilar Portugal classificando a sua fundamentação de acordo com a evidência científica, com recurso às cores do semáforo, e explicando o porquê dessa avaliação. É possível que algumas derivações deste método não sejam abordadas, e por isso podem deixar questões adicionais na caixa de comentários.

Segundo este site, o Cronograma Capilar realiza-se de acordo com a seguinte metodologia:

How Often Should You Wash Your Hair? | PLEIJ Salon + Spa
  • Inicia-se a limpeza do cabelo com um champô indicado para o couro cabeludo em questão, e não para o estado do cabelo. A quantidade de champô que escorre sobre a haste capilar é suficiente para a lavar.

Esta é efetivamente a forma mais eficaz de encarar a aplicação do champô, que se destina essencialmente a limpar o couro cabeludo. O facto de a haste capilar ser “poupada” a uma grande quantidade de champô, pode ser benéfico sobretudo se esta se encontrar seca ou danificada (1).

  • De seguida é colocada a máscara sobre o comprimento do cabelo enxuto, para que a máscara penetre. A máscara deve atuar apenas o tempo indicado na embalagem para não danificar o fio de cabelo caso seja utilizada durante mais tempo que o recomendado. Para melhores resultados deve-se passar os dedos pelos cabelos várias vezes.

É discutível que muitos dos ingredientes das formulações de máscaras capilares penetrem a fibra do cabelo. Aliás, os tensioativos catiónicos, óleos, manteigas e silicones destinam-se a atuar justamente sobre a cutícula capilar, que é a sua camada mais exterior. 

Já as moléculas mais pequenas, como são a glicerina, vitaminas, pequenos compostos presentes em extratos vegetais e péptidos poderão penetrar a cutícula. As vitaminas são compostos que intervêm em reações metabólicas realizadas pelas células do organismo (2). Contudo, e excetuando os humectantes, o efeito das diferentes vitaminas e péptidos sobre o cabelo é pouco conhecido. 

Uma vez que o cabelo é maioritariamente constituído por proteína, e que a absorção de vitaminas através do couro cabeludo é limitada, provavelmente estas vitaminas terão apenas uma ação antioxidante e/ou humectante para a pele e cabelo, podendo ajudar também a acalmar o couro cabeludo irritado.

Não está provado que a permanência de máscaras capilares por mais tempo do que o indicado seja nocivo para o cabelo. Acontece sim que a água presente na formulação da máscara pode evaporar ao longo do tempo, e por isso o cabelo nela embebido torna-se temporariamente mais “duro”. Deixar a máscara mais tempo do que é suposto também não irá aumentar a capacidade de absorção do cabelo nem trazer melhores resultados. No entanto, e a menos que quase toda a água da máscara se evapore, se o cabelo for enxaguado a máscara será facilmente removida. Ainda assim, nunca é um mau princípio respeitar as indicações do fabricante quando usamos produtos cosméticos.

O ato de espalhar bem a máscara é essencial para que esta alcance toda a superfície dos cabelos.

  • A máscara, é então enxaguada, retira-se o excesso de água, e é aplicado o condicionador. Também neste caso, a aplicação é realizada apenas no comprimento, e o produto é deixado a atuar por 1 minuto, sendo enxaguado de seguida.
Não é essencial usar condicionador após a máscara capilar. O pH destes produtos não é obrigatoriamente diferente, em muitos casos as formulações são até muito semelhantes, embora as máscaras se apresentem mais viscosas (3). Além disso, muito poucas marcas fazem esta recomendação de utilização na rotulagem dos seus produtos. Aliás, as marcas seriam as principais interessadas em vender ambos os produtos para a mesma lavagem! 

Mas apesar do uso cumulativo de máscaras e condicionadores não ser necessário, este poderá ser o principal motivo para o sucesso do Cronograma Capilar, sobretudo nos secos ou cabelos danificados; já que numa mesma lavagem são usados dois produtos de ação condicionadora. Desta forma, a deposição de ingredientes condicionadores sobre a fibra capilar será superior, o que tornará os cabelos mais suaves, brilhantes e fáceis de pentear.

  • No caso das máscaras, o cronograma capilar categoriza-as em 3 tipos:
    • Hidratação, para repor o conteúdo de água do cabelo. São destacados os seguintes ingredientes: extratos de plantas e frutas, mel, leite, proteína de seda e glicerina.
    • Nutrição, para repor os lípidos dos cabelos. Destacam-se os óleos e as manteigas.
    • Reconstrução, para repor a “massa capilar”. São destacados ingredientes como a queratina (animal ou vegetal), as proteínas e os aminoácidos.
Estas máscaras devem ser alternadas entre lavagens, seguindo uma sequência que é determinada pelo grau de dano e exposição a fontes de calor ou outro tipo de agressão:

Esta classificação ignora completamente aqueles que, a par dos emolientes, são dois dos principais responsáveis pela eficácia das máscaras e condicionadores capilares: os tensioativos catiónicos e os silicones.

Não é claro que as proteínas tenham uma ação reconstrutora verdadeira. Mesmo as proteínas hidrolisadas poderão ser demasiado grandes para fazer tal ação, e seria necessário que se estabelecessem ligações com a queratina danificada capazes de repor a integridade da cutícula capilar, não acontece. 

Além disso, as proteínas não se ligarão à haste capilar com a mesma “força” dos tensioativos catiónicos ou silicones modificados. Assim, estes ingredientes podem conseguir alguma penetração, aumentando a resistência do cabelo, mas não terão a capacidade de reparar o dano já infligido, tal como muitas vezes é proposto. 

Por outro lado, não é possível prever através da análise lista de ingredientes se as proteínas de um produto conseguirão penetrar a haste capilar, ou se terão apenas um efeito de revestimento da cutícula. Se aliarmos isto ao facto de estes ingredientes serem solúveis em água, e tendo em mente que não se ligam à queratina tão facilmente, percebemos que a sua eficácia é limitada quando comparados aos tensioativos caitiónicos ou silicones, já que os péptidos serão mais facilmente eliminados durante o enxaguamento (4, 5). 

É de notar que a maioria dos péptidos que encontramos em produtos cosméticos resultam da hidrólise (quebra) de grandes proteínas, como a queratina ou o colagénio. Estas misturas de péptidos hidrolisados possuem moléculas distintas, e a sua composição pode mesmo variar entre fabricantes de matérias-primas. Neste sentido, torna-se ainda mais difícil prever através da simples observação da lista de ingredientes que essas misturas tão variáveis entre fabricantes possam ter ação que pretendemos.

Em conclusão, a classificação de produtos cosméticos com base nestes critérios é dúbia, confusa, e falível, o que pode levar à compra desnecessária de produtos muito semelhantes. Vamos fazer um exercício!
Comecemos por sublinhar os ingredientes hidratantes, nutritivos e reconstrutores, segundo este método, de 3 máscaras da mesma marca categorizadas no site:

  • Hidratação, Novex Jaborandi
AQUA, CETEARYL ALCOHOL, PETROLATUM, ZEA MAYS STARCH, CETRIMONIUM CHLORIDE, PARFUM, AMYL CINNAMAL, HEXYL CINNAMAL, LINALOOL, PILOCARPUS PENNATIFOLIUS LEAF EXTRACT, METHYLPARABEN, PROPYLPARABEN, BUTYLENE GLYCOL, LACTIC ACID, RHODIOLA ROSEA ROOT EXTRACT, ROSA CENTIFOLIA FLOWER EXTRACT, ROSA GALLICA FLOWER EXTRACT, BENZYL ALCOHOL, POTASSIUM SORBATE, HYDROLYZED SOY PROTEIN, HYDROLIZED CORN PROTEIN, HYDROLYZED WHEAT PROTEIN, METHYLISOTHIAZOLINONE, METHYLCHLOROISOTHIAZOLINON.

  • Nutrição, Novex Meus Cachos de Cinema
AQUA, CETEARYL ALCOHOL, BUTYROSPERMUM PARKII BUTTER, ZEA MAYS STARCH, CETRIMONIUM CHLORIDE, GLYCINE SOJA OIL, PARFUM, BENZYL ALCOHOL, ALCOHOL, HYDROXYETHYL UREA, HEXYL CINNAMAL, DISODIUM EDTA, BENZOIC ACID, BHT, CETEARETH-60 MYRISTYL GLYCOL, HYDROXYCITRONELLAL, SORBIC ACID, LINALOOL, D-LIMONENE, LACTIC ACID, HELIANTHUS ANNUUS SEED OIL, HYDROLYZED WHEAT PROTEIN, HYDROLYZED SOY PROTEIN, HYDROLYZED CORN PROTEIN, LINUM USITATISSIMUM SEED OIL, COCOS NUCIFERA OIL, PHENOXYETHANOL, OLEA EUROPAEA FRUIT OIL, PERSEA GRATISSIMA OIL, ARGANIA SPINOSA KERNEL OIL, MACADAMIA TERNIFOLIA SEED OIL, ROSMARINUS OFFICINALIS LEAF EXTRACT.

  • Reconstrução, Novex Máscara Queratina Brasileira
AQUA, CETEARYL ALCOHOL, PETROLATUM, ZEA MAYS STARCH, CETRIMONIUM CHLORIDE, PARFUM, ALPHA-ISOMETHYL IONONE, BENZYL SALICYLATE, HYDROLYZED KERATIN, METHYLPARABEN, PROPYLPARABEN, BUTYLENE GLYCOL, PHENYL TRIMETHICONE, LACTIC ACID, RHODIOLA ROSEA ROOT EXTRACT, ROSA CENTIFOLIA FLOWER EXTRACT, ROSA GALLICA FLOWER EXTRACT, BENZYL ALCOHOL, LANOLIN, TOCOPHERYL ACETATE, POTASSIUM SORBATE, METHYLISOTHIAZOLINONE, METHYLCHLOROISOTHIAZOLINONE, GLYCERIN, ISOCETYL ALCOHOL, QUATERNIUM-70, AMODIMETHICONE, BEHENYL ALCOHOL, BENZOPHENONE-3, DIMETHYLPABAMIDOPROPYL LAURDIMONIUM TOSYLATE, DISODIUM LAURIMINODIPROPIONATE TOCOPHERYL PHOSPHATES, HYDROXYETHYL CETEARAMIDOPROPYLDIMONIUM CHLORIDE, PROPYLENE GLYCOL, ACETYL CYSTEINE, ARGININE HCL, C12-14 SEC-PARETH-5, C12-14 SECPARETH- 7, GLYCINE, LAUROYL LYSINE.

 A máscara nº 1 tem número de ingredientes hidratantes superior ao de ingredientes reconstrutores e nutritivos. Mas tendo em conta que a vaselina, uma mistura de óleos, se encontra em 3º lugar na lista de ingredientes, sendo assim o 3º ingrediente mais concentrado, como fazemos a sua classificação? É que o número de ingredientes que a máscara contém nada nos diz acerca da concentração dos mesmos.  

Ainda em relação à máscara nº1, como sabemos que estes extratos botânicos têm todos uma ação hidratante, quer por aporte de água, quer pelo fornecimento de ingredientes humectantes? Para tal, seria necessário conhecer a composição de todos estes extratos, e verificar os seus efeitos sobre o cabelo. Acontece que este tipo de estudo é raro, e o número de plantas estudadas para este efeito é reduzido.

 Atentemos agora na máscara nº 2. Tem efetivamente um número de ingredientes nutritivos superior aos hidratantes e reconstrutores. Mas tendo em conta que as proteínas também estão presentes, e são sempre usadas em concentrações relativamente reduzidas nos produtos cosméticos, porque é que a máscara não é considerada reconstrutora? Os óleos que se encontram no final da lista de ingredientes estão presentes em concentrações muito reduzidas. No limite, não sabemos se a soma das concentrações de todos eles não será próxima à da vaselina (petrolatum) na formulação anterior, que tem também um número de ingredientes mais reduzido, e por isso pode ter cada um dos seus ingredientes em concentrações mais elevadas.

 Por fim, olhemos para a máscara 3. Temos de facto muitos ingredientes “reconstrutores”, proteínas, mas estes são presentes em igual número quando comparados com os hidratantes. Na prática, não se consegue perceber se a concentração será igual ou superior. Além disso, e como vimos anteriormente, quanto mais extensa a lista de ingredientes, maior a probabilidade de os últimos da lista se encontrarem em concentrações baixas. Porque não é considerada hidratante, tal como a máscara número 1? Uma vez mais, a sua concentração total em proteínas pode mesmo ser inferior. 

  • Após a lavagem, recomenda-se secar o cabelo com toalha de microfibra ou t-shirt de algodão para reduzir o frizz e ao natural, ou aplicar protetor de calor e secar com secador.
 Tal como vimos anteriormente, o calor pode efetivamente danificar o cabelo. Mas a deixar o cabelo muito tempo molhado a secar ao natural humidade excessiva também (6)! O facto de o método possibilitar a sua escolha na forma de secar o cabelo faz todo o sentido. Relativamente à escolha do tecido da toalha, os tecidos mais absorventes proporcionam uma secagem mais rápida, e por isso requerem um menor tempo de fricção durante o processo.

  • O cronograma capilar desaconselha ainda o uso de dois ingredientes, com base em experiências pessoais das seguidoras:
  • Sodium chloride, cloreto de Sódio. É relatado como: 
    • “Um espessante barato utilizado na indústria, também responsável por grande parte da produção de espuma nos champôs”. 
 O que faz espuma são os tensioativos do champô. Experimentem agitar um champô com sal num copo de água. Façam o mesmo com apenas água e o sal de cozinha num outro copo. Se o copo não tiver resíduos de detergente, a mistura de sal e água não faz qualquer espuma.
O sal é efetivamente um ingrediente barato. Em que medida é que isto o torna pior? Não será benéfico para todos poder adquirir produtos económicos e de qualidade?
    • “Pode deixar o couro cabeludo ressequido, mas que influencia mais no nosso cabelo não está diretamente associado ao sal, mas aos químicos adicionados ao champô para disfarçar o cheiro após adição de sal”
 Cheirem o mesmo copo de água com sal que usaram anteriormente. Quanto aos “químicos” que disfarçam o suposto cheiro do sal, estamos a falar do quê mesmo? Esta afirmação não tem fundamento.

    • “Há membros que retiraram produtos com este componente em grande concentração os champôs (os ingredientes são colocados nos produtos por ordem de concentração e geralmente é o segundo ou terceiro na lista) e notaram grandes diferenças, da mesma forma que há quem tenha feito a mudança e não se tenha dado bem. Associar o sal nos champôs ao alisamento não faz muito sentido, e pior ainda confundir sal com sulfatos”
 Cada produto contém 20 ingredientes. Como é que podemos afirmar com certeza que um produto é melhor do que o outro por causa do ingrediente X, quando há uns 5 a 10 ingredientes diferentes em ambos os produtos? Porque não foi o ingrediente Y ou Z, ou até a interação entre todos os ingredientes do produto, que provocaram os resultados observados? 

A experiência que os membros relatam permite apenas concluir que o produto que usaram, e que não contém sal, é mais adequado para o seu couro cabeludo do que aquele que usaram anteriormente e continha sal. Isto não quer dizer que essa mesma pessoa não consiga ter uma experiência igual ou melhor com um outro produto com sal, igualmente adequado às suas características pessoais; e muito menos generalizar que todos os produtos sem sal são melhores do que os produtos com sal. Esta experiência permite-nos apenas concluir que um produto é melhor do que outro para uma pessoa em particular; pelos motivos explicados no parágrafo anterior.

 Não há qualquer evidência de que o sal contido em produtos "reverta" o alisamento capilar, nem tão pouco é provável que isso aconteça, ou que contribua de forma relevante para que o cabelo fique mais seco. Isto porque o cloreto de sódio se transforma nos seus respetivos iões, sódio e cloreto quando se encontra em dissolvido (no champô, por exemplo). Senão vejamos:
  • A água do mar, cujo efeito negativo sobre o cabelo é a base desta teoria; tem concentrações de sal entre 3,5 a 4%. 
  • Um champô pode conter 1 a 2%. Parece pouca diferença, certo? Mas não é. Porque ninguém lava o cabelo apenas com champô, já que este é diluído e removido com água!
  • Imaginem que usam apenas um copo de água (250mL) para lavar o todo o cabelo (na verdade vão usar bem mais!). Se aplicarem 10mL de champô (um exagero) com 2% de sal, passam a ter uma solução com 0,08% de sal. E se para além disso considerarem que estes produtos vão contactar com o cabelo por apenas alguns segundos, já que os champôs são enxaguados e removidos durante este processo; torna-se muito difícil a acreditar, visto que nem sequer há qualquer prova factual, que o sal pode ser prejudicial para o cabelo.

  • Sodium hydroxide, hidróxido de sódio
    • “É muito utilizado na indústria como regulador de pH, logo, está presente em grande parte dos cosméticos. Dependendo da sua concentração (nunca conseguimos precisar a concentração, apenas a ordem de concentração dos ingredientes), pode influenciar cabelos que tenham descolorações/tinta/alisamentos, ao reagirem com ingredientes presentes nos compostos das químicas capilares.”
Sodium Hydroxide, Grade Standard: Industrial, Rs 46 /kilogram ...
É verdade que nunca sabemos a concentração do hidróxido de sódio nestes produtos. Mas isto não quer dizer que este composto pode estar presente em concentrações elevadas! Até porque, sabendo que o hidróxido de sódo se trata de uma base forte, facilmente se percebe que em elevada concentração este tornaria o produto altamente alcalino e corrosivo para a pele e cabelos. Ora, nenhum fabricante de produtos cosméticos tem interesse em ferir ou até matar os seus clientes, e isto não acontece porque é usada apenas a quantidade de hidróxido de sódio estritamente necessária para ajustar o pH do produto final.

 Se o nome “hidróxido de sódio” ainda vos faz confusão, vamos ver de que é feito: O hidróxido (OH-) está presente onde quer que haja água, o que em biologia quer dizer sempre. Já o sódio (Na+) também está amplamente distribuído pela natureza, sendo essencial para o funcionamento das células. Ciente disto, e das baixíssimas concentrações a que este ingrediente é usado; facilmente se compreende que o hidróxido de sódio é absolutamente inofensivo em produtos que cumprem a legislação dos produtos cosméticos. Os efeitos nocivos do hidróxido de sódio dependem única e exclusivamente o pH da solução onde este se encontra. Ora, se o produto final tem um pH compatível com a pele e cabelos, pH este que é consequência da interação entre todos os ingredientes da formulação, não há qualquer problema em usar este ingrediente. Se a marca optar por não usar hidróxido de sódio, será forçada a substituí-lo por ingredientes que possuam exatamente a mesma função, como a trietanolamina ou hidróxido de magnésio.

    • “Ou seja, há relatos de cortes químicos por usar produtos com grande quantidade de hidróxido de sódio, mas não quer dizer que todos os produtos que contenha hidróxido de sódio provoquem corte químico., daí alertarmos para a presença do ingrediente, mas não fazermos nenhum alarmismo sobre a proibição de o usar.”
 O que é um “corte químico”? Em química, este termo não existe. Mas imaginemos que este termo tem como objetivo representar algo semelhante ao que acontece num alisamento, processo que permite quebrar a queratina do cabelo, e vejamos o que acontece nos alisamentos com hidróxido de sódio (que atualmente quase não se usam):

Nestes procedimentos usam-se soluções de pH 13, permitindo assim quebrar as ligações dissulfureto da queratina, que serão restabelecidas posteriormente. Esta gama de pH é altamente irritante para a pele, podendo gerar queimaduras graves. Revêem-se nesta experiência quando usam um champô com pequenas quantidades de hidróxido de sódio? Não creio. Esta declaração, que alegadamente é feita sem a intenção de provocar alarmismos, não tem assim qualquer fundamento. A mistura de pequenas quantidades de hidróxido de sódio com todos os restantes ingredientes da formulação, numa gama de pH francamente mais ácida do que a de um alisamento, não é capaz de provocar os efeitos relatados.


Porque é que o Cronograma Capilar pode funcionar?



Este método explica inclui alguns passos que nem sempre são seguidos na rotina de cuidado de cabelo comum, e podem ser relevantes para a saúde do cabelo e couro cabeludo:
  • Para começar, este método refere defende o uso de champôs de acordo com o as características do couro cabeludo, e incentiva a utilizá-lo apenas na cabeça. Esta será uma estratégia interessante não só para garantir que o couro cabeludo fica limpo na medida certa, independentemente do estado do cabelo, mas também para melhorar o aspeto do cabelo, evitando agressões do champô na haste capilar e permitindo uma maior deposição de ingredientes condicionadores ao longo do cabelo;
  • Para um cabelo mais danificado por ações externas (utensílios de calor, alisamentos, descolorações, colorações, etc), o uso cumulativo de máscaras e condicionadores poderá ser o principal motivo para o sucesso deste método, seja porque permite a acumulação de ingredientes condicionadores na haste capilar (tensioativos catiónicos, emolientes e silicones), mas também porque este tipo de cabelo atrai os ingredientes tensioativos catiónicos. Assim,  este método permitirá que a deposição de ingredientes condicionadores sobre a fibra capilar seja superior, o que tornará os cabelos mais suaves, brilhantes e fáceis de pentear. No entanto, é preciso ter em mente que este efeito é temporário, sendo que na próxima lavagem capilar estes resíduos irão ser removidos na sua totalidade ou de forma parcial, sendo necessário suar novamente máscaras e condicionadores para manter o bom aspeto de um cabelo mais danificado;
  • O ato de espalhar bem a máscara ao longo do cabelo é também essencial para que esta alcance toda a superfície dos cabelos;
  • A utilização de protetores de cabelo também é uma forma de reduzir os danos provocados pelo uso de calor.
Como posso tirar partido do Cronograma Capilar?


Escolher champôs de acordo com o tipo de couro cabeludo, e limitar a sua alicação á cabeça;
  • Utilizar de condicionadores e máscaras capilares na mesma lavagem pode ser interessante para quem possui um cabelo seco e danificado
    • Contudo, em cabelos muito finos, com pouco volume e que rapidamente adquirem um aspeto oleoso; esta prática pode não ser eficaz ou pertinente, especialmente se estes cabelos não apresentarem qualquer dano. Neste caso, e se pretender seguir o cronograma, será interessante optar por máscaras e condicionadores das gamas de cabelo oleoso e com pouco volume, que permitirão melhorar a suavidade do cabelo com uma deposição de ingredientes condicionadores mínima, e menos redução de volume como consequência;
  • A classificação de máscaras e a sua rotatividade não será muito relevante pelos motivos explicados anteriormente: a sua classificação em hidratante, nutritiva e regeneradora é falível e difícil prever através da simples observação da lista de ingredientes. No entanto, deixamos sugestões para quem gosta ou não de osciliar este tipo de produto:
    • A nossa sugestão será usar apenas uma máscara capilar de que goste, ou dividir as máscaras capilares que deixam mais ou menos resíduo, conforme a sua experiência de utilização, e alternar entre elas. Esta estratégia será também mais benéfica para quem utiliza cremes finalizadores sem enxaguamento, já que evita que o cabelo fique com aspeto “pesado” por acumulação de resíduos.
    • No momento da compra, e para diferenciar máscaras capilares no que diz respeito à quantidade de resíduo depositado sobre o cabelo, poderá analisar se lista de ingredientes do produto e tentar perceber se este tem uma maior ou menor quantidade de ingredientes emolientes comparativamente a outro. Esses ingredientes são silicones, óleos minerais e vegetais, manteigas e ceras. Contudo, este tipo de análise não é de forma alguma conclusiva. Para já, o consumidor comum não conhece, nem tem que conhecer, todos os ingredientes usados na formulação de proutos cosméticos. Depois, a análise de listas de ingredientes não pode ser encarada como garantia, já que a fórmula final do produto depende da interação entre todos os ingredientes da formulação, e não da presença de ingredientes isolados. 
    • Tal como mencionado no artigo anterior, a leitura do rótulo e em especial do tipo de cabelo para o qual esse produto se destina (seco, danificado, etc.) será provavelmente a melhor ferramenta para a escolha de produtos, já que é aí que podemos perceber com que objetivo o produto foi formulado e qual a melhor forma de o usar. 

Conclusão

A metodologia para a escolha do champô é pertinente, e beneficiará a generalidade dos utilizadores deste método. Para quem tem cabelo danificado, o uso cumulativo de máscaras e condicionadores pode ser benéfico, já que aumenta a deposição de ingredientes condicionadores sobre a fibra capilar. Contudo, a classificação das máscaras em hidratante, nutritiva e reconstrutora é pouco rigorosa, e e necessidade de alternar entre máscaras poderá não ser necessária para todas as pessoas. Por fim, os ingredientes sodium chloride e sodium hydroxide destacados como sendo potencialmente nocivos para o cabelo são reconhecidamente seguros e inócuos nas concentrações usadas nestes produtos, quer para a fibra capilar, quer para a saúde humana.

Referências

1. Draelos ZK. Hair cosmetics. Dermatol Clin. 1991;9(1):19-27.
2. Villa AL, Aragao MR, Dos Santos EP, Mazotto AM, Zingali RB, de Souza EP, et al. Feather keratin hydrolysates obtained from microbial keratinases: effect on hair fiber. BMC Biotechnol. 2013;13:15.
3. Robbins CR. Chemical and Physical Behavior of Human Hair 5th Edition: Springer-Verlag Berlin Heidelberg; 2012.
4. Blume-Peytavi U. Hair Growth and Disorders: Springer-Verlag Berlin Heidelberg; 2008.
5. Freis OG, D. Fluorescence LSCM to Assess the Penetration of Low Molecular Protein Hydrolyzates Into Hair Cosmetics & Toiletries2013 [cited 2020-05-14]. Available from: https://www.cosmeticsandtoiletries.com/testing/invitro/premium-Fluorescence-Laser-Scanning-Confocal-Microscopy-to-Assess-the-Penetration-of-Low-Molecular-Protein-Hydrolyzates-Into-Hair-209734881.html.
6. Lee Y, Kim YD, Hyun HJ, Pi LQ, Jin X, Lee WS. Hair shaft damage from heat and drying time of hair dryer. Ann Dermatol. 2011;23(4):455-62.

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