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quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O paradoxo da beleza eco-friendly

Imagem de Konstantin Kakanias e amimação de Jonathan Eden para New York Times

Nasci em 1992, e vivi grande parte da minha idade escolar nos anos 2000.

Como qualquer pessoa da minha geração, já perdi a conta ao número de vezes que li ou escrevi sobre "o ambiente"; o que naturalmente me fez ganhar alguma repulsa a este assunto. Não, nunca duvidei por um segundo que o nosso planeta estivesse ameaçado por todas as atrocidades que lhe temos feito desde o momento em passámos a movernos apenas em duas patas. Não sou uma espécie de Donald Trump, nem acredito que as alterações climáticas sejam invenção da China. E se dúvidas tivesse, bastaria olhar para as recentes vagas de refugiados do clima, e que tenderão a ser mais frequentes; ou a para famosa "ilha de plástico no Pacífico"; cujas imagens foram capazes de mobilizar mais gente neste planeta do que todos os cientistas que nele existem. Infelizmente para todos nós, o senhor Trump não vê noticiários. Mas eu vejo.

Ora então porque é que vos falo isto? Porque sem esta minha experiência de vida, provavelmente não teria como olhar para a tendência eco-friendly/green/sustentável que tomou conta da indústra cosmética com algum cinismo. 

Imagem de Yoyokulala
Nos últimos anos, têm surgido várias marcas que desenvolvem o conceito da sustentabilidade na sua comunicação; sem muitas vezes ir mais longe do que isso. Essa tendência continua a crescer a olhos vistos; e um dos pontos importantes para o despertar da consciência ecológica no que toca a beleza foi a proibição do uso de microesferas de polietileno em produtos cosméticos pela FDA (EUA), em 2015, com restrição da sua produção até 1 de Julho de 2017 e da sua venda até 1 de Julho de 2019. Na altura fiquei um pouco perplexa por 2 motivos: que me lembre, só há 2 tipos de produto contendo estes ingredientes: os esfoliantes e as pastas de dentes. Por sua vez, cada marca terá em média 1 esfoliante em toda a sua gama de produtos, e nem todas as pastas de dentes têm estas microesferas. Impõe-se a questão: serão as microesferas de polietileno tão nocivas assim para o ambiente? Não tenho tantas certezas. "Mas há-de ser minimamento nocivo, e sempre é melhor que nada". Experimentem apagar um incêndio com um copo de água. Não será mais relevante promover a redução do uso de plástico desde os materiais de embalagem, por exemplo; já que esses sim estão presentes num elevado número de produtos? Porque é que insistimos em implementar medidas simbólicas em vez de pensar o problema como um todo?

Ao mesmo tempo que se implementa esta nova regulamentação, temos o mercado de skincare e maquilhagem a crescer a olhos vistos; o que tem vindo a fomentar uma série de comportamentos um tanto ou quanto eco-enemy... E curiosamente, são muitas vezes as mesmas pessoas que defendem estas medidas simbólicas as que mais fomentameste crescimento. Falemos por exemplo de sheet masks. Cada máscara contém uma formulação (creme/gel/whatever), a máscara propriamente dita e uma embalagem; sendo que todo o conjunto está limitado a um número reduzido de utilizações. Sim, as sheet masks podem ser reutilizadas; mas mesmo que lhes consigamos dar várias utilizações, vamos gerar muito mais lixo do que aquele que resulta de um produto contendo 30-50 mL. 

Mas as sheet masks não são as mães de todos os males. E como em tudo o que é tendência; se a procura cresce, o número de novidades também dispara. E como é que isto afeta o ambiente? Para criar novos produtos é preciso gastar mais energia, matérias primas, fazer materiais de comunicação... E tudo isso gera lixo, ao mesmo tempo que gasta recursos naturais de forma direta ou indireta. 

Falemos então em materiais de comunicação. Quem não resiste a um belo de um unboxing? Aparentemente muita gente; porque atualmente as marcas investem como nunca na publicidade dos seus lançamentos entre influenciadoras e imprensa; com o simples propósito de aparecer no respetivo instastories, feed de instagram ou num vídeo do youtube. Ele é perfumes envoltos num coração de chocolate destinado a ser aberto por um martelo (KKW style); ele é encomendas cheias de confetis (que alguém vai ter que apanhar), ele é caixinhas dentro de caixas dentro de caixonas; em que no final se enconta a última novidade da marca, envolta em mais papel tal qual uma peça de joalharia... Tudo vale a pena quando o objetivo é destacar uma marca de entre as dezenas de correspondência que estas pessoas recebem diariamente. Em Março desde ano, o site "Fashionista" realizou um inquérito no qual cerca de 81% dos recetores deste tipo de press kit afirmava considerar que as encomendas que recebem contêm geralmente "embalamento excessivo". E de agora em diante, provavelmente o unboxing deixá de ser fixe.

Mais recentemente, tem surgido a tendência de formular produtos sem água. Sim, waterless. Isto porque a água potável é um recurso escasso, e algumas marcas acreditam que os consumidores irão exigir este tipo de produto no futuro. A água é possivelmente o ingrediente mais abundante em produtos cosméticos, e por isso se esta tendência vingar; avizinham-se grandes alterações como a formulação de cosméticos em pó, aos quais o consumidor terá muitas vezes que acrescentar à água; ou a utilização de outros veículos. Mas até que ponto os ingredientes alternativos (porque em muitos casos eles terão que existir), não serão mais nocivos para o ambiente? Até que ponto a produção destes mesmos produtos não gastará mais água do que um produto contendo água que já existe para mesma finalidade? E a questão que mais inquieta: perante a escassez de água potável em determinadas regiões do mundo, até que ponto o contributo da indústria cosmética para este problema, no que toca à utilização de água na formulação dos produtos; é sequer significativo? Em todo o caso, as gigantes da indústria cosmética como a L'oreal, têm investido em programas de promoção da sustentabilidade; com reduções significativas no gasto de água, energia e produção de lixo.

Imagem de Azafran Innovation
Falemos por isso de formulações. Acima desta tendência eco-friendly, temos as tendências "clean"; que se podem diversificar em vegan, orgânica, natural, cruelty-free... Relativamente a esta última, põem-se ainda algumas questões de segurança; mas os últimos anos têm sido marcados por grandes avanços. Mas desengane-se que acha que produtos vegan, orgânicos e naturais são necessariamente mais sustentáveis! É verdade que uma porção significativa destas marcas têm também o hábito de comunicar uma atitude de consciência ambiental. Mas tratando-se muitas vezes de marcas pequenas, que para além de retirarem a maioria dos seus ingredentes ativos; estas marcas subcontraram muitas vezes laboratórios externos para realizar as suas formulações. Será que neste campo estamos a ganhar sustentabilidade? Reforço a minha dúvida quando vejo novas marcas com este posicionamento a aparecer quase todos os dias...

Este texto trata-se de uma reflexão sobre os nossos hábitos de consumo no que toca a produtos cosméticos, mas pode facilmente ser extrapolado para outras vertentes. Com ele pretendo levantar questões para as quais muitas vezes também eu não tenho resposta, e quem sabe abrir um debate saudável acerca daquilo que realmente podemos fazer para ter um impacto menos negativo sobre o meio ambiente. Enquanto consumidora, reduzir (consumir menos... ouch!), reutilizar (dar um novo uso a embalagens e produtos esquecidos) e recilar (optar por embalagens biodegradáveis) parecem-me ser as melhores formas de começar.

Caramba, agora a minha professora primária deve estar orgulhosa!

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